Sobre o relativismo moral e a moralidade situacional

Uma observação muito rápida das notícias, não deixa dúvidas que mais do que nunca, o mundo vive uma crise moral sem precedentes. Corrupção, fome, injustiça social, genocídios e segregação racial são alguns dos fenômenos que assistimos diariamente. Face a esta situação calamitosa, é pertinente encontrar respostas para as seguintes perguntas: Porquê, apesar dos avanços nos campos científico e tecnológico, a civilização continua enfrentando os mesmos paradigmas do passado recente ou medieval? Qual é a explicação para tamanha distorção nos padrões éticos e morais? O processo de inversão de valores não para, porquê? Essas são algumas das questões que estimulam minha reflexão sobre os desafios enfrentados pela humanidade atualmente e que, em minha opinião, ameaçam o bem estar das civilizações.

Uma das possíveis respostas para estas perguntas, pode estar ligada à necessidade por uma reforma urgente para o conselho de segurança da ONU, para diminuir a influência de tendências radicais baseadas numa interpretação equivocada, ou no mínimo incoerente do que é moral e ético. Estas tendências, usam e abusam dos conceitos de relativismo moral para justificar suas atrocidades contra adversários ou inimigos.

Muito tem sido dito a respeito da ética e da moral desde os tempos da Grécia antiga, passando pela história das grandes religiões, e culminando com iluminismo europeu e suas reverberações nos valores da civilização ocidental até hoje. Da ética de Aristóteles e das três grande religiões monoteístas, extrai-se um conjunto de valores universais que foram moldados pelas experiências das civilizações ao longo da história consolidando assim, uma base ética e moral que é aceita universalmente, e convencionada pela sociedade moderna como senso comum.

Um bom exemplo deste senso comum, é a declaração universal dos direitos humanos adotada e proclamada pela resolução da Assembleia geral das Nações Unidas- ONU número 217A de 10 de dezembro de 1948 (http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm). Esta declaração, acabou constituindo a partir de 1948, uma baliza moral que em tese deveria nortear a conduta ética de todos os países signatários.

Infelizmente, desde sua adoção, as interpretações desta carta serviram para encobrir ações que no mínimo são contrárias ao senso comum sobre moral e ética. Ditaduras, invasões, terrorismos, massacres e omissões são cometidos em nome da moral e dos bons costumes, impactando a vida de milhões de pessoas nos últimos 70 anos. Tudo isso, acontece em minha opinião por várias razões entre elas encontram-se:

1.A parcialidade do órgão fiscalizador (Conselho de segurança da ONU) onde foi implementada uma arquitetura de arbitragem pouco democrática, e que confere à apenas cinco entre os 196 países membros da ONU, o direito de vetar qualquer resolução que vai de encontro aos seus interesses ou de seus aliados,
2.A ausência de mecanismos sérios de coerção para garantir a implementação das resolução do consellho da ONU, quando existirem.

Diante disto a ONU perdeu muito poder, e consequentemente respeito se tornando cada vez menos capaz diante das emergências de fatos inusitados, como os que estão acontecendo hoje. A consequência deste desequilíbrio acabou por dar espaço à um relativismo moral, que confere aos perpetradores a oportunidade de interpretar e criar seus próprios padrões éticos e morais, inaugurando uma era de moral distorcida e consequentemente um modelo moral do tipo ” self service” gerando um caos que ameaça desestabilizar a paz mundial.

Este fenômeno, que é uma aberração conseguiu engendrar em todas as regiões do mundo, seguidores fervorosos que simplesmente acreditam na superioridade de seus valores, e que sua existência depende da extinção do outro, mesmo que para isto, sejam transgredidas todas as convenções estabelecidas sobre os direitos humanos deste outro, do qual são também subtraídos os direitos mais básicos.

O pior é que esta tendência, acaba sendo endossada pelo silêncio dos intelectuais e dos homens de boa vontade, que consequentemenete, acaba estimulando o surgimento de mais radicalismo e mais distorções. O que acontece em Gaza nos dias de hoje, sem margem para dúvidas e com a confirmação da ONU, constitui mais uma violação à lei internacional e à declaração universal dos direitos do homem e um bom exemplo que reforça a necessidade por uma reforma urgente da ONU e pela criação de mecanismos efetivos capazes de garantir o respeito às leis internacionais e aos direitos humanos.

As civilizações atuais, principalmente a ocidental, precisam forjar um novo contrato universal para preencher esta sensação de vazio, criada pela política de um peso e duas medidas e que dá ao amigo direitos quase absolutos sobre seus adversários e aos outros sequer os direitos mais básicos.
O relativismo moral ou situacional, não é, nunca foi e jamais será uma baliza para o mundo cada vez mais globalizado e menos justo. Afinal, se não aprendermos das lições históricas sobre as consequências trágicas desta visão distorcida da moral e ética, a humanidade continuará a viver num ciclo vicioso os horrores de novos genocídios e de guerras intermináveis. Para ter paz, é preciso confiar na justiça e de que ninguém, simplesmente ninguém, pode estar acima da lei e das convenções morais.

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